sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Estereótipos e questões de identidade entre brasileiros e portugueses

Há um mês atrás a mamã de peep-toe deixou um comentário que só vi ontem. Ela estava perplexa por ter visto um vídeo no youtube e ter se deparado com animosidade dos dois lados. Perguntou-me se era assim mesmo, se os brasileiros tinham  tanta raiva assim dos portugueses. Este vai ser um post longo...
Em primeiro lugar, posso falar com mais propriedade sobre o meu estado, o Rio Grande do Sul, e aqui além das piadas de português, além dos atores Ricardo Pereira e Paulo Rocha, o país e seus nativos não são sequer lembrados. Os argentinos ocupam todo espaço para raivas e querelas que um gaúcho pode ter. Depois, nossa capital foi fundada por açorianos, os doces mais famosos são os de Pelotas, que são derivados dos doces portugueses, embora isto não seja levado em conta. 
No meu caso por exemplo, só conheci um pouco da cultura porque a minha tia morou em Lisboa alguns anos e sempre que vinha nos visitar, trazia qualquer coisa, um lenço, um dvd da Mariza ou do Silent 4. Não tinha raiva, tinha curiosidade. No entanto isto mudou quando casei e fui morar em Portugal. Porque pela primeira vez senti preconceito. Sou branca, de classe média, era magra e relativamente bonita, nunca sofri preconceito no Brasil por ter estes requisitos. Isto foi a primeira coisa que me chocou, estarem a dizer que falo brasileiro (nunca imaginei que pudessem ter preconceito com a forma que falo) aliás, para quem nunca viveu aí isto é inconcebível, nós falamos todos português. Depois era com a forma de vestir e às vezes nem mesmo com uma roupa discreta, se sabiam que era brasileira era logo taxada de fácil, de puta. Sei disso porque trabalhei em um restaurante no qual homens (casados em sua maioria) queriam saber na latinha o meu nome e telefone. Além de olhar para a minha bunda de forma lasciva e espalhafatosa. Aí pensam, mas então é brincadeira, não sabes brincar? Gostariam que me pusesse a contar piadas e chamá-los de burros? Gostam? Gostam? É só uma brincadeira...
Comecei a sentir ódio profundo por todos os portugueses e este ódio aumentava cada vez mais. Aos poucos fui percebendo que era uma idiota, que este ódio era uma espécie de proteção para não me  ferir e que por ele, deixei de conhecer muita gente boa. E quem diz portugueses, diz lisboetas porque aquela altura era só o que conhecia, tanto que quando fui ao Porto fiquei maravilhada com aquela gente tão bem humorada e prestativa. Não tinham nada a ver com os portugueses que odiava. E além disto, odiava ainda mais os brasileiros que forçavam o sotaque para não parecerem brasileiros, a fim de se enturmar e não sofrerem preconceito. Tinha até uma amiga que ficava feliz quando diziam: nossa, nem pareces brasileira, tão bem que te portas, te vestes e falas!
Com o tempo fui aprendendo a desarmar-me, mas confesso que o sangue até hoje ferve quando leio alguma coisa a respeito de nós. Sim, digo nós porque é uma questão de identidade. Sou brasileira e ofendo-me por consequência se encontro alguém a escrever que os brasileiros são todos ladrões e as mulheres umas putas. Como não sentir um nó na garganta? Porém hoje opto por não falar nada, não me interessa mais ficar a discutir e enervar-me com este tipo de gente. Não vale a pena e acho que isto serve para os dois lados.
Não há qualquer sentido em os brasileiros ficarem a acusar e sentir raiva desta geração pela invasão portuguesa, pelo ouro que nos levaram, isto é completamente absurdo. É como culpar os alemães de hoje pelo holocausto. Até quando eles tem de levar a culpa por algo que não fizeram? Lá está, assim como é ridículo por outro lado, os portugueses continuarem a se referir a nós como seres rudimentares das ex-colônias, não reconhecendo que a nível econômico e cultural os ultrapassamos há anos. A literatura, a música de qualidade ( porque só é lembrado o forró e sertanejo, mas  há coisas realmente boas), no meio acadêmico, etc, etc. Não acho que deva ser um fato de andar a se esfregar na cara do outro, analisando bem e friamente, é apenas uma constatação, porque apesar disto nosso país ainda deixa (muito) a desejar no que se refere a bem estar social.
Tá mas e de onde vem este ódio? Vem tão e simplesmente do efeito que causam os estereótipos em nossa identidade, aqui falo de ambas as partes. O brasileiro é tido como perturbador da ordem, ladrão, malandro, as mulheres são putas profissionais ou não. O português é visto como tacanho, mau humorado, burro, desconfiado. E a questão dos estereótipos além de tudo se volta para o regionalismo brasileiro. Assim, o baiano é preguiçoso e lento (como o alentejano), o gaúcho é viado (de transviado, gay), o carioca é malandro e às vezes ladrão a querer se passar por "exxxxperrrto", o mineiro é pouco inteligente, o paulista é o corno porque está trabalhando 20 horas por dia.  Os etereótipos são uma forma simples de dar significado ao nosso meio, é uma forma feia, é estúpida, mas obviamente não é raro ver quem se utilize delas para classificar o outro. Eu mesma admito que já me passou várias vezes pela cabeça que os gordos são preguiçosos, que os cariocas não são confiáveis, and so on, and so on.
Sabemos que todo mito de pensamento, como é o caso dos estereótipos tem um fundo de verdade. Sim, foram brasileiros para assaltar bancos, foram mulheres para prostituir-se voluntária ou involuntariamente. E por isto muitos que foram para ganhar seu dinheiro honesto são vistos com maus olhos, às vezes sem sequer abrir a boca. Este é o principal problema dos estereótipos: não darem a chance da pessoa reverter a imagem que já se tem sobre ela. Aquela é puta e pronto. Aquele vai embora pro Brasil e não vai pagar o aluguel. Perguntem para qualquer brasileiro imigrante na década de 90, cujo visto deveria ser renovado no consulado  de Portugal e na maioria das vezes se optava por ir a Vigo, quem era a Pilar. A mulher que desmanchava-se em educação quando eram alemães, franceses e que era um poço de despeito quando ouvia o "bom dia" brasileiro. Isto é apenas um exemplo.
Por acaso depois de deixar Portugal, sinto saudades até do sotaque português. Acho que é um país muito bonito do pouco que vi, acho que a imagem que tenho hoje da maioria do povo é que são pessoas divertidas (ao menos pela blogosfera), e que imbecis há por toda parte aqui e aí. Acho que sobrevalorizei-os e sinto pena de ter sido tão bobinha, mas sempre é tempo de revermos nossas crenças. E nada melhor para quebrar um estereótipo do que a convivência. Enquanto nos mantivermos atrás de ideias pré-concebidas a respeito de seja o que for, perdemos a oportunidade de ser seres humanos mais ricos. Ficamos como os cavalos que só vem o que as rédeas "deixam". E o que são duas pessoas a discutir tendo como base estereótipos senão dois animais irracionais com antolhos?  

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Ó Senhor

Fiquei sabendo o nome da nova namorada do meu primo: Luany Nichele.


Ça vá? Bah...não, saravá!

um curso de francês e uma aulas de mímica também...


O meu pior defeito com certeza é o pessimismo. E ele é tão antigo e tão presente que me é difícil andar a silenciá-lo. Não só difícil como também cansativo. Já o segundo pior defeito é ser medricas. Detesto mesmo!! Acho que fui criada tão protegida em um colégio de freiras, desestimulada a trabalhar em part time quando estava na faculdade, convencida a não ser boêmia pelos micos constantes que meus pais me fizeram passar que acho o resultado compreensível. Tenho medo de mudanças. Tenho medo de tudo que é desconhecido. Tenho medo de mudar novamente de país, desta vez para um que não falo patavinas e que entendo muito menos. Ler eu até chego lá, fiz um ano de francês instumental com ênfase em leitura e interpretação acadêmica. 
Fico verde só de pensar em ir ao mercado sozinha, em ir em busca de escola para o Fabian. Em que falem comigo na rua e eu fique tal qual um surdo mudo a fazer mímicas com uma baguete a balançar. As pessoas vão achar que sou louca. Já até decorei uma frase: désolé, je ne parle pas français. Tá mas e daí, o que me salva depois disto? O inglês? 
Tem horas que eu só penso, segura na mão de Deus e vai e vai. Não sei quando o marido vai conseguir nos buscar, mas é uma questão que me aflige. Será completamente diferente de Portugal onde mal ou bem entendíamo-nos, onde fui acolhida pelos amigos dele, onde fui perdendo o medo de andar sozinha porque a qualquer momento podia parar alguém e pedir ajuda. Já pensamos que será primordial a minha inscrição em um curso de francês quando lá chegar, mas tem outra coisa que me incomoda: o tal biquinho. Não gosto de fazer biquinho, sei lá, dá a impressão que to pedindo beijinho por aí, tal e qual aquelas peruas velhas. E depois são aqueles erres impronunciáveis, as élision chatas que me perseguem. 
O que me consola, é que ao menos vou realizar o sonho de toda pessoa civilizada que é soltar palavrões no meio da rua e ninguém entender. 

“Filhos são uma grande fonte de felicidade. O problema é que eles transformam todas as outras fontes de felicidade numa porcaria”

Muito interessante o artigo e o ponto de vista de uma mulher sem filhos sobre o mesmo.
Artigo.
Blog: Escreva Lola, escreva


h! Ter filhos deixa as pessoas mais infelizes, jura uma excelente reportagem de seis páginas da revista New York (cheguei lá através de um post do Alex). Eu não iria ler o artigo inteiro por absoluta falta de tempo, mas ele me fisgou. Algumas partes são muito divertidas, como esta no início, que cita um estudo menos negativo de um cientista que diz: “A mensagem geral não é que crianças fazem você menosfeliz; é só que crianças não fazem você mais feliz. Quer dizer, a menos que você tenha mais de um filho”. Mas como assimtodos os estudos apontam que casais sem filhos são mais felizes que casais com filhos? Mentiram pra mim a vida toda?! Toda vez que olharam pra mim e fizeram um “tsc tsc, tadinha”, estavam falando besteira? (Pergunta retórica. Eu sei que eles estavam falando besteira.Não preciso de pesquisas pra comprovar).
É evidente que essas toneladas de estudos são propositalmente escondidas da gente, porque o senso comum prega exatamente o oposto. Se eu ganhasse um real pra cada vez que ouvi ou li, ou me disseram na cara mesmo, que eu era uma mulher incompleta por não ter filhos, que eu só poderia ser infeliz, que é terrível não deixar meu legado pra humanidade, que o meu casamento não iria durar, eu estaria rica agora. E não creio que convém à mídia espalhar que pessoas sem filhos são mais felizes ― afinal, pessoas com filhos gastam mais. Muito mais.
E filhos não apenasconsomem uma enormidade, como não servem pra gerar renda. O artigo cita um estudioso que diz: “Crianças são economicamente inúteis, mas emocionalmente inestimáveis”. E parte para um interessante apanhado do passado recente. Até pouco tempo, vivíamos em zonas rurais, não urbanas. E, pra quem morava no campo, ter filhos era essencial para ajudar a cuidar da fazenda. Para quem tinha um negócio de família, crianças serviam pra cuidar da loja. Mas, com o tempo, isso mudou, e hoje não é aceitável associar inncia com trabalho (não estou reclamando. Concordo 100% que criança não deve trabalhar). Mais uma mudança: até poucas décadas atrás, os casais apenas tinham filhos, sem pensar tanto no assunto. Hoje pensam. E esperam pra ter filhos, principalmente os casais com mais dinheiro. Uma psicóloga explica que era diferente sair da casa dos seus pais para a vida de casado e com filhos, o que era quase imediato. Se o casal espera, quando tem filhos, ele sabe o que está perdendo. Para um psicólogo, “Filhos são uma grande fonte de felicidade. O problema é que eles transformam todas as outras fontes de felicidade numa porcaria” (não preciso de pesquisas pra saber que casais com filhos pequenos fazem menos sexo. E cinema acaba, né? A menos que seja pra ver filme infantil).
E os pais atuais, pelo menos os americanos (e os brasileiros de classe média, imagino, são bem parecidos), criam expectativas altas demais para o ato de criar filhos. E se culpam por não passarem mais tempo com seus rebentos (incluindo mulheres que trabalham fora; ah sim, todos os estudos mostram que mães são menos felizes que pais), apesar de passarem mais tempo com eles que os pais passavem em 1975. Jennifer Senior, a autora do artigo, resume o sentimento de criar filhos numa frase: “tanta felicidade e nenhuma diversão”.
Quero compartilhar alguns estudos fascinantes que pincei da reportagem. Um pediu que 909 donas de casa texanas elencassem suas atividades preferidas. “Cuidar dos filhos” ficou em 16o lugar... de um total de 19. Até limpar a casa veio antes!
Outro estudo reuniu 1,540 horas filmadas do dia a dia de pais e seus filhos. Assistir essa metragem, segundo um especialista, é “a mais eficiente forma de controle de natalidade já feita. Na história”.
Noutro estudo, cem casais casados há tempos tiveram que escrever detalhadamente sobre o que brigavam. 40% era sobre as crianças. Ter filhos significa mais stress no relacionamento e, óbvio, menos intimidade para o casal. O relacionamento conjugal melhora quando os filhos têm entre 6 e 12 anos, e piora quando chegam à adolescência. Casais com filho gastam menos de 10% do tempo que têm juntos, sozinhos, sem as crias. E, durante esse tempo, estão exaustos e assistem TV, você sabe.
No entanto, em países com bem-estar social maior e um histórico de governos que priorizam o social, pais com filhos são mais felizes. Por exemplo, na Dinamarca. Lá a licença-maternidade é de um ano, e homens também recebem licença-partenidade. Há creches à disposição e um ótimo sistema público de saúde e educação. Uma escritora americana reconhece: “Nós gastamos toda a nossa energia em ser pais perfeitos, ao invés de exigir mudanças políticas que façam a nossa vida em família melhor”. E aí, você acha que nós estamos mais próximos do modelo dinamarquês ou americano?
Já um estudo dos EUA mesmo mostrou que mulheres casadas com filhos têm menos depressão que mulheres casadas sem filhos. Provavelmente porque sobra pouco tempo. Agora, quer saber o grupo mais deprimido de todos? Pais solteiros! Dá pra acreditar? A especulação é que eles querem ter mais envolvimento na vida dos filhos e não podem.
Claro que a grande questão é: o que é felicidade? Para um psicólogo, a felicidade não é quanta diversão temos, mas o que fazemos com a nossa vida, o que alcançamos. As pessoas costumam se arrepender mais do que deixam de fazer do que do que fazem. Um estudo não quis testar felicidade e preferiu perguntar sobre atividades que são compensadoras e prazerosas. Cuidar dos filhos não foi bem no item do prazer, mas alcançou ótimos níveis na parte da recompensa (se bem que voluntariado e rezar vieram antes. Rezar, ó deus!). Sabe a atividade considerada menos compensadora pelos americanos?Dormir!
O artigo do New York Magazine é prazeroso e instrutivo até a quarta página, por aí. Depois começa a relativizar e querer agradar os casais com filhos, entrando na dureza que é definir felicidade. Eu sou uma pessoa feliz, e já deixei claro que não tenho filhos nem nunca quis ter. Mas desconfio que eu também seria feliz se tivesse filhos (quer dizer, filhos? No plural?! Um já estaria mais do que bom!). Seria provavelmente divorciada, porque só de ver como o maridão cuida dos gatinhos (“Amor, eu tô ocupada aqui, dá pra você brincar com o Calvin?”. E ele: “Já vai!”, e não vai), pode-se notar que ele não é daddy material e eu ficaria estressada por ter que mandar no filho e no marido. Talvez eu seja uma pessoa inclinada à felicidade porque não sou muito ambiciosa, nem espero tanto da vida. Ou talvez eu faça questão de ser feliz por acreditar que esta vida é a única que terei, então pra quê desperdiçá-la sendo infeliz?
Aliás, um ponto que não tá no artigo, mas que me tem feito pensar, é que crianças servem para medir a passagem do tempo. Acho que casais sem filhos percebem muito menos essa passagem. E isso não é necessariamente bom. Tipo: o maridão não se sente tão diferente de quando ele tinha 30 anos, e olha que ele já tem duas décadas a mais nas costas. Mas quiçá seja positivo não perceber a vida passar. Ficamos menos ansiosos.
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