quinta-feira, 25 de julho de 2013

Mania de vira-lata


A sério que me irrita alguns brasileiros andarem sempre a criticar o seu país ora porque isto, ora porque aquilo, ora porque tem, ora porque não tem. Se concordo com o governo que está aí, com a corrupção e a falta de vergonha na cara dos políticos? Mas é claro que não! Porém é inegável que apesar de todos os problemas a miséria tem vindo a diminuir, há cada vez mais a expansão da chamada classe C, os antigos pobres e muito disto deveu-se às ajudas como bolsa família, bolsa escola, cotas universitárias, minha casa minha vida, etc. Isto é assistencialismo, dizem uns. Tem que se ensinar a pescar, dizem outros. Concordo, mas é o começo. Respondam-me como se pesca se não há de cara um bom ensino fundamental? Se faltam professores? Se chegam às vezes turmas inteiras com alunos de dez anos analfabetos? Ah que ótimo, damos a vara e o anzol e "te vira"? Como assim? O povo não tem educação, não tem assistência médica e reclamam do dinheiro que se dá para que as mães tirem os filhos da mendicância e frequentem uma escola para ao menos aprender a ler e contar. Que classe é esta que critica? Possivelmente gente que nunca teve que esforçar-se por nada, que os pais deram um duro danado para manter em faculdade privada e que tem o seu carro zero e viagem a Paris em 24x. Ah poupem-me! Como já disse no facebook, até é bom que vão para fora e abram os olhos. Na França há auxílio moradia, auxílio infância, há cursos de graça (obviamente financiados pelo governo) para estrangeiros aprenderem o francês, e muito mais e lá ninguém chama de assistencialismo. Lá ninguém tem vergonha disto. Lá é um Estado Social. Ah... vocês ainda tem muito que correr para curar esta síndrome de vira-lata.

And the Oscar goes to...mom


Um dia ao falar do desejo que tinha de engravidar, um conhecido disse-me: não te isoles, sério, não faças isto. Na hora fiquei estupefata com o comentário porque não percebia a relevância deste conselho. Não me isole do que? E é como aquelas coisas na vida em que só passando pela situação para entendermos, afinal ser mãe a tempo (quase) inteiro é muito complicado. E arrisco-me a dizer, que é muito mais fácil a mãe que sai para estudar ou trabalhar do que a que fica em casa com seu(s) rebento(s). Isto porque a mãe que sai, respira novos ares, obriga-se a se recompor de noites mal dormidas, coloca uma base e um gloss e uma roupa no mínimo apresentável e ah, muito importante: penteia até o cabelo! A mãe que fica em casa, na minha opinião (que não quer dizer nada de verdades absolutas, não passa do meu ponto de vista), merece uma menção honrosa ou medalhas ou como acontece em Portugal, seu nome no quadro de honra. Geralmente a mãe que fica em casa, passa o dia tentando arranjar maneiras de não enlouquecer, tal como um náufrago com o olhar perdido no horizonte salgado, com a diferença em que neste caso não há tempo para olhar para o mar (ou relógio). As horas ora curtas ora vagarosas quando se aproximam da chegada do pai, a limpeza da casa, o preparo da comida, o cuidado da roupa fariam-se com o pé nas costas se não fossem os filhos. Os berros, as birras, as  fraldas, quando não são fraldas são xixis, mãeee limpa, mãe fome, mãe colo, mãe sede, mãe desenho, mãe dodói... 
A mãe cansa, às vezes grita por dentro senão grita por fora e cansa-se mais. Às vezes o dia passa e ela dá-se conta de que não fez metade das coisas e que ainda por cima mal cuidou de si. Olha para as fotos das amigas sem filhos ou com filhos crescidos muito joviais em jantaradas e pensa na última vez que saiu com uma delas que fosse para tomar um inocente café. 
As mulheres modernas reclamam da vida agitada, de como é difícil conciliar trabalho, cuidados da casa e maternidade e dou-lhes razão. No entanto acho que não se compara emocionalmente falando com as mães  que ficam em casa com filhos pequenos. Porque como disse, o problema está em isolar-se, em deixar-se naufragar em um oceano de fraldas e choros e músicas histéricas de desenhos animados. O problema está em conviver pouco ou quase nada com gente adulta. Está em esquecer-se no desespero das urgências do cotidiano. O problema está em achar que está tudo bem e que ser mãe anula automaticamente todos os papéis anteriores. O problema está em quando finalmente consegue dar uma escapadinha, ficar se martirizando pela má mãe que está sendo por necessitar de momentos longe das crianças. 
Agora entendo a importância de não se isolar. Entendo infelizmente tarde demais, depois de ter passado inclusive por uma depressão. Ser mãe não mudou em 180º a minha vida, não me fez alcançar o nirvana, nem andar sobre brasas. Tenho só um e pretendo continuar assim, porém não deixo de amirar ou às vezes achar loucura vá lá, quem tem mais que um filho e ainda por cima seja mãe a tempo integral. Sério, merecem um Oscar!

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Dicionário das ruas #1

Botecar: prática frequente de saídas com destino a botecos (tascas)

Baranga: mulher feia, diz-se daquela que também tem modos rudes.

Embarangar: ato de envelhecer precocemente, mulher de carnes caídas e/ou mal cuidada.

Piriguete: mulher geralmente jovem que usa poucas roupas ou vestimentas chamativas, assim como acessórios espalhafatosos. Diz-se também mulher atiradiça. Vulgo perua.

Baranguete: mistura de baranga com piriguete. Mulher feia que se acha gostosa.

Exemplo de piriguete: Suelen (Ísis Valverde) em Avenida Brail.

Cidades

A minha cidade é feia, já aqui o disse. É feia e me dói admitir porque é quase como dizer isto de um filho ou de alguém que se gosta muito. Ando pelo coração da cidade perdida entre prédios altos e de fachadas decadentes. São como velhos curvados pelo tempo e pelo vento minuano. O centro é uma porção de ruas pousadas em morro e descidas íngremes, uma paisagem cinzenta e viva simultaneamente. Vozes anônimas cantadas, gritadas, resmungadas, adquirem o tom da própria voz da minha cidade. Passam todas elas em coro, ecoam em suas artérias pululantes, alguém vende ouro, alguém quer que eu venda meu cabelo, alguém oferece preços atrativos, alguém anuncia consultas para colocar aparelhos ortodônticos. Daqui a nada começam a anunciar, "ólhó promoção de silicone: prótese 230 ml na hora, na hora!". 
Os ônibus e carros circulam oprimidos em um mar de cabeças. Avançam e cortam obstáculos ao sabor da correnteza. É com uma ponta de desânimo e relutância que junto-me à maré. Faço a minha parte. Faço-me cidade e incorporo concreto e asfalto, de minha pele brotam paralelepípedos, de meus olhos janelas espelhadas. No meu sangue pulsa o Guaíba inteiro, de meu calor, agora o frio. Sou assim, um Porto Alegre cinzento de outono. E ainda dizem que as cidades pertencem às pessoas... não, as cidades é que as tomam para si e faz parte da vida esta inconsciência de que se é coletivo.
 Aos poucos preparo-me para deixá-la outra vez, ela se ressente, sinto-o. Não quer ver ninguém partir. Quer saber se volto e preocupa-se se lá onde vou outra cidade me irá acolher. Digo-lhe que não sei com a incerteza que me é costumeira, não sei de nada, nem do último olhar que lhe vou deitar quando estiver ao céu. Vejo meus punhos cerrados, misturo-me. Já dentro de mim Lisboa eriça-me a pele com as calçadas de calcário e basalto. Duas cidades disputam meu corpo, meu coração. Reviro-me, tenho a alma em carne viva. Meus pensamentos nadam em ruas fantasmas, sem minha história, sem memória de mim. Há o medo que escorrega entre pedras, há um medo aqui dentro, um medo sem fim. 
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