quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O câncer do Brasil




Não, não é a corrupção. São os crentes, mais especificamente os evangélicos. É claro que há como em toda regra algumas exceções, mas o problema está em a comunidade crente ter se tornado cada dia mais expressiva no Brasil, inclusive na política. A primeira vez que tomei contato com eles foi na faculdade. Eu e uma amiga tínhamos uma aula daquelas que nem davam tempo de almoçar antes no RU, já que começava à uma e pouco, e nem dava para almoçar depois, porque terminava às três. Neste meio tempo ficávamos vagando pelos corredores de luzes apagadas e salas vazias enquanto comíamos algum lanche que tínhamos trazido. Naquele dia percebemos um alvoroçamento incomum: balões, música (rap? já não lembro), e algumas pessoas passando com pratos com doces e salgados. Alguém nos viu sentadas a um canto e nos convidou para entrar na "festa". Não foi somente alguém, diria que foi um certo alguém alto e lindo, de olhos verdes da cor do mar de Maceió. Olhamo-nos e fomos com muito prazer. Chegando lá, muita alegria, confraternização entre estudantes na maioria do curso de letras, e ficamos sabendo que a tal festa aconteceria todas as quintas naquele horário. Quando nos despedimos por causa da aula, eles perguntaram: então, voltam? E nós: que dúvida! Depois...bem depois nos apresentaram a bíblia e a sua "missão" (caramba que aquela gente se leva bem à sério) na faculdade. Queriam que participássemos das festas que rapidamente deixaram de ser apenas diversão para ser o veículo por onde tentavam nos convencer a frequentar uma igreja evangélica. Para quem não conhece há várias: Universal (que é a mais conhecida), Igreja do evangelho quadrangular, do triangular, etc. Mas ao saber que tanto eu quanto a minha amiga não tínhamos intenção de nos engajar à causa, a nascente camaradagem terminou. Ali.
Eu não sou contra as religiões no geral, mas sou contra a ignorância, ao preconceito e consequente intolerância travestida em fé. Porque se as pessoas vão a qualquer lugar, seja um terreiro de umbanda, seja uma igreja batista ou evangélica e aquilo faz-lhes bem, é isto que importa. Mas não acho jamais que este tipo de culto faça bem porque o que acontece ali é uma lavagem cerebral em que são todos muito amigos e muito unidos se comungam da mesma fé, no entanto são proibidos de manter contato com pessoas de outras religiões a não ser para trazê-las para o rebanho. Há casos que vi com os meus próprios olhos de pessoas que inclusive se afastaram da família, que deixaram de assistir tv, que passaram a escutar somente a rádio do pastor e que finalmente acabaram se divorciando porque não há Cristo  que aguente alguém assim. Para mim este fanatismo evangélico é uma pseudo religião, porque se o significado da mesma é "religar" a Deus ou a uma energia divina e por conseguinte a tudo que desta advém (ou seja, a humanidade está incluída), e a única coisa que faz é separar, é ostracizar e infernizar quem não acredita no mesmo, então esta não cumpre o seu papel. Além disto, outra coisa que deixa-me perplexa é o fato das pessoas se preocuparem muito mais com o demônio do que com Deus. Tem uma piada que diz que no motel se fala mais "Deus" do que nestas igrejas... O que contribui para isto é o pastor e o seu discurso de medo: tudo pode ser artimanha do diabo, uma música, um filme, uma notícia de jornal e até a marca de uma maionese famosa (isto mesmo a Hellmann´s haha). Tal julgamento não abre qualquer espaço para reflexão e para que o crente pense em nada que não seja o que é dito por ele. Em certa medida, a igreja evangélica é nos tempos modernos, o que a católica foi na Idade Média: um instrumento de medo, de controle e de enriquecimento.
Quando falei aqui sobre a polêmica do beijo, os comentários que mais me apavoraram por serem extramente maledicentes e preconceituosos, partiram de nada mais nada menos do que destes servos do Senhor. E a desculpa nem era de estar sendo um babaca, não, eles estavam apenas dizendo A verdade, contida to-di-nha na bíblia. Ora, dá para levar à sério alguém que acredita em um livro que foi escrito anos depois (mais de cinquenta pelo menos) da morte de Jesus, e na maioria por gente que sequer o conheceu, ouvindo apenas o boca a boca? Um livro escrito por milhares de autores diferentes dizendo que aquela era a palavra de Deus? Por homens comuns ou com outros interesses, um livro cujas páginas se perderam na história e outras  foram acrescentadas, reescritas e/ou censuradas ao bel prazer da santa madre igreja?  Quem me prova se em algum destes escritos lá no meio não havia "Deus" dito que não tinha nada contra os homossexuais,  sendo que até os espalhou por quase toda sua criação? Quem me prova que o diabo não foi apenas um personagem criado pela Igreja católica para aterrorizar as "criancinhas" tal como nós falamos em nome do bicho papão para sermos respeitados?
O mundo não precisa de mais pessoas tementes a Deus e ao diabo. Precisa de gente de bem, independente de acreditarem ou não em alguma coisa, basta apenas que acreditem em seu próprio valor e contribuição para a humanidade...pena que isto não enriqueça muita gente, não é?

As brigas

Ontem o Fabian voltou da escola com um arranhão no pescoço e a gengiva cortada. Tem um hematoma tão grande dentro do lábio superior que mal consegue fechar a boca. Eu sei que meu filho não é flor que se cheire, mas eu fico apreensiva com esta situação. Ele é um menino enorme, com tamanho de cinco anos, mas tem a cabeça de um menino de três, ainda acha que as disputas se resolvem na força. Muito provavelmente andou se metendo com um menino maior que ele. Quando perguntei quem tinha feito aquilo, disse-me que foi "o menino escuro", se ele não estiver inventando (o que é comum acontecer), agora faz sentido o tapa furtivo que deu em um colega da escola negro a minha frente e sem qualquer razão para tal. 
Dói, eu sei que dói e por mais que o aconselhemos que não comece uma briga e que brinque direito, a verdade é que a escola é o primeiro batismo social das crianças e como tal, lá irá aprender como na vida, seja no amor, seja na dor. O problema é que nem tudo um pouco de gelo resolve.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Enquanto isto, nas aulas de francês

Chegamos em um impasse. Que é como quem diz, não estou mais nem ao nível dos meus colegas e ainda (acredito) estou longe dos outros, os que já falam francês. A professora já havia me falado da possibilidade de mudar de turma, a mim e a outro colega do Kosovo. Acontece que com medo (e talvez um pouco de acomodação) fui me deixando ficar, convencendo-me de que não seria a melhor opção para mim. Mas depois de um mês das "invasões georgianas", as aulas tem vindo a regredir a fim de que os novatos recebam toda a matéria dada antes deles chegarem. Deixou de ser desafiador, parei inclusive de tentar realizar traduções mais elaboradas e escrever em francês. Hoje depois de corrigir minha folha de exercícios sem nenhum erro, disse-me que era hora de passar para o professor Jean Claude. Assisto mais a aula de quinta e depois das duas semanas de férias, mudamos eu e o outro colega para outra turma. Friozinho na barriga à parte, acho que vai ser bom, nem que seja para pegar no tranco.

O homem francês

Ele colocava as compras sobre a esteira em um balé de mãos delicadas. Agarrava, tirava, olhava timidamente para a senhora da caixa em busca de aprovação. Ou não. Era calvo e muito magro, suas roupas eram tão ajustadas que imagino que exista uma loja só para este tipo de corpo fora do padrão. Que aliás, aqui na França nem é tão fora assim, pois nunca vi tanta gente magra por metro cúbico. 
Eu e o marido olhávamos com a ânsia característica do cliente a seguir, mas ele não se importava. Pagou, sorriu e agradeceu em um tempo só dele, como se estivéssemos em universos paralelos. Dessincronizados. 
Na verdade não querendo tecer um estereótipo, mas apenas baseando-me pelo meu sentido de observação, aquele homem que estava a nossa frente na fila do mercado, é um exemplo clássico do que parece representar o que chamaríamos de "homem francês". Frágeis de aparência, magros, altos na mesma proporção de timidez, ou seria polidez? Eu não sei, mas intriga-me este jeito quiçá afeminado se comparado ao "macho latino", impetuoso, que flerta, que olha, que anda com passos seguros de si. Não, o homem francês não olha para as mulheres, neste tempo todo nunca vi nenhum desviar o olhar para uma mulher bonita, muito menos virar o pescoço. Se a Cláudia Schiffer ou qualquer outro mulherão passasse por aqui, ia estranhar a indiferença e possivelmente ficar um tiquinho deprimida. Acho que o quadro se torna ainda mais contrastante se analisarmos os franceses perante a maior fatia de imigrantes, os árabes. 
No filme Benvienue chez les Ch'tis, na última cena, o personagem principal chora sem cerimônia agarrado a outro homem que por sua vez também chora. É uma despedida. Na nossa cultura é compreensível (cada vez mais) que um homem chore, mas diante de certos momentos de dor como em face à morte e principalmente diante das pessoas "certas". A mulher, os pais, os irmãos e pouco menos.  É engraçado ver o nosso estranhamento diante daquela cena que reflete uma ausência daquela sacudidela de pó tão característica do homem brasileiro. Do "alto lá, sou homem!", e um desconcertante tapinha nas costas, muito másculo para não comprometer. As lágrimas, eles engolem, na maioria das vezes, à medida que olham para o lado buscando desentupir aquele nó que se instalou na garganta. Naquela cena, dois homens franceses heterossexuais se abraçam e choram sem medo, sem culpa. Estariam eles tão seguros de sua masculinidade a ponto de pensarem que não precisam de provar nada a ninguém? E desta feita veio-me a imagem e o pensamento preconceituoso, é certo, com que encarei pelas primeiras vezes o homem francês. Aquela aparente fragilidade esconde uma coragem que muitos homens brasileiros (e quem diz brasileiros diz qualquer outro macho latino) não têm...
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