De repente me vi como em um tubo no tempo, um tubo que me deu alguma vertigem, confesso, como aqueles elevadores que antes de chegarem em um determinado andar, sobem a bílis até a garganta. Na atmosfera respirava medo, terror. Pessoas gritavam, outras fugiam, escondendo-se como pudessem. O céu da Alsácia estava nublado e escuro, não sei ao certo que horas eram porque fazia frio e os dias de inverno tem este dom de passar lentamente e nos transpor a um estado de torpor e alheamento. Mas eu vi ele destacado entre tantos soldados, cabelos loiros em um corte militar enquanto dava ordens a eles. Sorri de um modo estranho e o meu capitão não esboçou qualquer empatia por mim. Trazia no cenho o peso do mundo e a aceitação da morte iminente. Quando finalmente mergulhei em seus braços o contato com seu peito forte soube a pouco, não havia tempo, infelizmente na guerra nunca há tempo para o amor. Ele carregou-me pela mão e fomos em direção a uma capela, ninguém lhe negava um casamento às pressas. Depois de casados aos olhos de Deus, saímos em busca de algum lugar para consumá-lo, percorremos ruas fazendo muitas vezes a contra-mão dos que buscavam a salvação. Procuramos casas abandonadas e tivemos o cuidado de evitar as com cadáveres de gente que havia decidido que não daria a chance do destino decidir nada por elas. Entramos em uma casa onde ouvia-se a voz de um homem a falar ininterruptamente e até pensamos tratar-se de uma televisão (pois parecia pertencer a uma família abastada) ou mesmo de um rádio, mas ao abrir a porta nos deparamos com um velhote muito magro. E completamente louco. Já cansados, invadimos um hotel e o gerente disse que não iria cobrar-nos nada ao ver a farda dele, deixou-me que escolhesse o quarto que quisesse. E eu me lembro daquele cabelo loiro e sabia que ele era tu. Tinha os mesmos olhos rasgados que me levavam a ti, o olhar cansado e meio ausente de quem já havia encontrado a morte vezes demais. Não eras um monstro para mim, eras apenas o homem que eu amava e que reencontrava a cada esquina do destino. Lembro-me sim, e não sei como, já estávamos despidos da carne e ias para uma nova existência. Queria com todas as forças assistir ao processo de reencarnação, mas não me foi permitido. Orei. Fechei os olhos e pensei em todo o horror daquelas ruelas, dos gritos, do sangue e do nosso amor. Fechei os olhos e acordei sentindo ainda mais vivo este laço que nos une vida após vida, há muitos séculos atrás... Não sei quando fora a primeira vez, sei apenas que hoje cada vez que meus olhos batem nos teus, há sempre a faísca de um reencontro e um certo despeito por um ponto final.
quarta-feira, 26 de março de 2014
segunda-feira, 24 de março de 2014
Lança menina, lança todo este perfume
Há qualquer regra aqui que eu quebro quase todos os dias. As pessoas me olham, tenho certeza que sim. Ahh, aquela criatura (visualizem os olhos apertados de despeito)! Como ousa? Será o possível que só euzinha tenho a coragem de aparecer assim? É que não vi ninguém até agora a rasgar a bandeira e gritar do alto de um banco: sim, eu lavo os cabelos de manhã! Sim, eu tomo banho to-dos os dias! Juro que estou só comentando...mas vai fazer sete meses que estou aqui e até agora não vi uma, uma só pessoa de cabelo molhado na rua. Claro que isto não quer dizer que as pessoas não tomem banho (fora aquelas que dá para fritar as batatas todas do mc Donalds do fim de semana). Pode ser que sequem antes de sair, mas eu duvido, porque cabelo assim sai voando e fica soltinho e brilhoso. O que acontece é que as pessoas tomam banho à noite, aí levantam de manhã e não "perdem" tempo ficando cheirosas e tals. O problema é que isto não é de fato perda de tempo, porque as crianças a gente desculpa, mas gente bem grandinha fedendo é brabo! As pessoas não se dão conta que de noite a gente sua? E baba e o desodorante vence?
Tenho muita boa vontade, mas o meu nariz não me acompanha e eu realmente não sei o que é pior: se no inverno que as pessoas acham que não suam e por isto não fedem e por isto continuam a usar over and over again o casaco asudo. Ou se no verão que é um libera geral, abra suas asas, solte suas feras e caia na gandaia.
Qualquer dia destes além de militante do cabelo molhado ainda apareço de air wick em punho e "Lançaaaaa , lança perfume tchi chi". Ninguém merece.
Palavras
Para mim palavras são como as pessoas, umas a gente adora, outras a gente detesta. Odeio ver à baila certas palavras, sei lá, parece que me dão alergias só de ouvir serem pronunciadas. Uma delas por exemplo é chinois, chinês em francês, mas que se diz com um O fechado a escorregar para o A no final, bem escancarado. Diz-se "chinôá" e eu nem sei bem o que me irrita se é a sonoridade da coisa ou se é o movimento bucal, porque lá está, eu tenho tendência a olhar mais para bocas que para olhos. Depois tem outra que nunca me caiu bem no ouvido que é peut-être (pûtétrrê), não tenho certeza se pelo significado (tem lá coisa mais irritante que um talvez dito de um jeito meio blasé?) ou pela ruga no queixo que se forma e depois desvanece ao fim. E claro, depois há as palavras em português tanto do Brasil como de Portugal. Detesto a palavra "raça", parece algo velho e puído como um pano encharcado pousado sobre um tanque de roupa. Não gosto de paralelepípedo porque me lembra daquelas pessoas chatas que querem tudo explicadinho. Não gosto de sujidade, não gosto de embrulho. Não gosto da maioria das palavras francesas que fazem parte da minha memória: abajour, demodê, frisson... E é como aquele desconforto que sentimos diante de algumas pessoas, não sabemos ao certo o porquê, mas incomoda engolir certas palavras.
sexta-feira, 21 de março de 2014
Como eu me sinto quando...
Vejo que não lembro de quase ninguém dos meus contatos do celular
A gente percebe que não dá uma atualizada na agenda do celular quando guardamos o número de um conhecido que morreu há mais de cinco anos!! Não sei o que eu ainda faço com ele nos meus contatos... fora que mais de 80% é de gente que eu já não faço a menor ideia de quem seja. Doutor Torres? Laura? Sérgio (seria o ex da minha tia?)? Logo eu que me orgulhava da minha memória minuciosa...
Assinar:
Postagens (Atom)